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Coração de Tinta

Somente aquele que foi o mais sensível pode tornar-se o mais frio e o mais duro, para se defender do mais pequeno golpe – e esta própria couraça lhe pesa muitas vezes.” Johann Goethe

[ Ato 1 – A Carência ]
Minha memória de detalhes está ficando a deus dará. Não que haja algo de errado com ela. Na verdade, são os detalhes. Já não me importo mais com eles.

Me pego as vezes conversando com o silêncio. Ele me arranca boas gargalhadas. Não é sempre, mas é o suficiente pra mim.
Esses dias conheci uma mocinha de cabelo preto escorrido. Linda! Lembrei de macarrão japonês. Dei uma bela risada por dentro, mas não comentei nada. Fiquei atento a seus olhinhos que brilhavam quando ela dizia alguma coisa interessante.

Estou me distraindo mais fácil ultimamente. E as pessoas estão se contentando com respostas mais curtas, aquelas do tipo: que legal, entendi, vai ficar tudo bem.
Acho que é a carência. Ninguém se importa se as pessoas realmente se importam. Elas querem mesmo é aquele abraço apertado no final da conversa e da sensação de poder contar com alguém.
O mundo está mais carente. Me uso de exemplo.

[ Ato II – O Frio ]
Está chovendo lá fora e sinto frio aqui dentro. Dentro do peito.
De certo modo, consegui finalmente ser uma pessoa fria. Literalmente. E isso não me tornou indestrutível, pelo contrário. Quanto mais frio, mais sinto falta do calor aconchegante. Paradóxo. Tentei me livrar daquilo que me mantem vivo.
Hoje vou tomar chocolate quente. E não olharei pela janela. Vou ignorar aquela gota de chuva escorrendo que me lembra você. Me lembra as coisas mais bonitas. Me lembra aquela última lágrima que tocou o seu rosto.
Será simplemente um chocolate quente. Sem pretenção alguma. Apenas o calor que aquesce o corpo, feito um abraço apertado.

[ Ato Final – O Coração ]
Eu já amei, já odiei e já esperei o que vem depois. Nada. Logo entendi que o que realmente importa é como você aproveita cada momento. É o que você vai lembrar quando não quiser pensar em nada.
Pensei em nada por muito tempo. Foi tempo suficiente pra pensar em você.

Como sinto falta de ouvir sua voz. Mesmo quando alterada. Principalmente quando carinhosa.
Tanta coisa mudou. Quanto tempo passou. As vezes sinto você comigo. As vezes estou com você.
E mesmo que você não sinta, ainda está presente no meu frio coração de tinta.

Se a chama que está dentro de ti se apagar, as almas que estão ao teu lado morrerão de frio.” Mauriac